Cansada de ser enganada, empresária abre oficina mecânica para mulheres

Cansada de ser enganada por mecânicos e descobrir que havia pago quantias altas por serviços desnecessários em seu carro, a empresária Daniella Lima, de 38 anos, decidiu fazer um curso e aprender sobre mecânica por conta própria. Após os estudos, começou a atender amigas e foi indicada a outras clientes. Foi então que a ex-assistente administrativa viu uma oportunidade de negócio e decidiu enfrentar o preconceito apostando em uma borracharia e lava jato voltados para o público feminino.

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“Eu sempre resolvia essas coisas, pois meu marido não tinha tempo. Era recebida por aquela ‘macharada’, todos me olhando e me sentia um pouco constrangida. Como não entendia nada, deixava que fizessem o serviço da maneira que eles acreditavam ser melhor. Muitas vezes fui enganada por não ter uma presença feminina para me passar segurança”, relata.

De botas cor de rosa, brincos, maquiada e sorridente, Daniella mostra às clientes os serviços oferecidos pela oficina como lavagem geral e do motor, troca de óleo no local ou a domicílio, e manutenções na suspensão, embreagem e motor.

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A empresária garante que não tem frescura na hora de sujar as mãos de graxa e óleo e destaca que todos os consertos possuem um toque feminino. Além disso, as clientes podem acompanhar tudo que é feito no carro pelo WhatsApp.

“Quase todo dia, a cliente chega com uma ‘lista de feira’, cheia de coisas para trocar. Eu digo a ela que vou colocar o carro no elevador e fazer o meu orçamento. Nisso, vou mostrando o que precisa ser trocado ou não e explico para que ela entenda esses sinais. Houve listas que já cancelei 70% das peças que o mecânico de outra oficina condenou”, conta.

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Todo o cuidado e preocupação que dedica no atendimento às clientes é recompensado. A funcionária pública Dalvaní Azevedo, por exemplo, lembra que chegou na oficina sem nem mesmo entender qual era o problema do veículo dela. A motorista foi ao local após um colega indicar a oficina e afirmou que ela não seria enganada.

“Eu mal sei dirigir. Um rapaz havia me dado um orçamento altíssimo e disse que mil coisas estavam com problemas e precisavam ser trocadas. A Daniella fez o serviço de qualidade por um preço justo. Quando estou aqui me sinto em casa, não encontro um monte de homem e não fico constrangida. A Dani mudou toda a ideia que as pessoas têm de mecânica. Ela é linda, maquiada e arrumada trabalhando de forma honesta”, destaca.

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Preconceito
Daniella fez cursos no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-AC) nas áreas de mecânica e eletricidade automotiva. Apesar de ser uma das melhores da turma, sofreu preconceito dos colegas. Desempregada, foi indicada por um professor para estagiar em uma oficina no bairro Bosque, em Rio Branco.

“Trabalhei alguns meses como estagiária e fiz um acordo com o proprietário para que ele cedesse um espaço onde eu fizesse troca de óleo atendendo minhas amigas. Quando elas iam a oficina não queriam ser atendidas por homens e se sentiam mais à vontade comigo. Na época, adaptei uma rampa e, quando elas não vinham até mim, eu ia para a garagem da casa delas e fazia o serviço a domicílio”, lembra.

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Aos poucos, a clientela da mecânica foi crescendo e pedia que ela executasse outros serviços além da troca de óleo. Foi então, que decidiu investir no próprio negócio. Há um ano, a empresária alugou, em parceria com a mãe, o local onde estagiou. Junto com Daniella trabalham a mecânica Cris Negreiros, um mecânico e um lavador.

“Sempre nós mulheres atendemos. É claro, temos homens trabalhando, pois infelizmente é uma profissão que não é muito explorada pelas mulheres. Às vezes a demanda é grande e preciso contratar um mecânico do sexo masculino. Começamos com serviços básicos de mecânica geral e pretendemos expandir ainda mais”, destaca.

Hoje, segundo a empresária, 70% dos clientes são mulheres. Ela afirma o número de homens que buscam atendimento, 30%, é pequeno devido ao preconceito. “Quase toda semana entra um cliente do sexo masculino, olha para a gente e pergunta se somos mecânicos e se só tem a gente para atender. Depois disso, dá uma desculpa e vai embora”, lamenta.

Quando consegue espaço para mostrar suas habilidades, Daniella diz que os homens ficam surpresos. Todos os processos, como troca de óleo, são filmados e enviados por WhatsApp a todos os clientes para que se sintam seguros. Quando o veículo sai da oficina, elas permanecem fazendo um acompanhamento caso haja algum problema.

“Quando um homem deixa o carro, nós mostramos que temos conhecimento na área, conversamos e deixamos ele à vontade. Após o atendimento, temos todo o cuidado de ligar na semana seguinte e ver como ficou o serviço, se estão escutando algum barulho diferente ou algo assim. Isso é muito importante porque queremos garantir que nosso serviço fique 100% bom”, explica.

Após o sucesso do investimento e retorno positivo das clientes, Daniella estuda maneiras de atrair outras mulheres para a área. “Queria mostrar à elas como a mecânica funciona e que é tudo muito simples. É muito gratificante quando a gente faz o que gosta, pois na minha antiga profissão eu era frustrada, não gostava do que fazia. O melhor é ver que o nosso trabalho é reconhecido nessa área que é tão carente de mulheres”, finaliza.

As informações são do G1 (Fotos: Quésia Melo/G1)

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