O seu carro é uma lata velha ou uma raridade? Veja como é feita a avaliação

A paixão dos brasileiros por carros antigos não vem de hoje. Na década de 1960, colecionadores como o paulistano Roberto Lee e o fluminense Og Pozzoli já começavam a fundar os primeiros clubes de automóveis antigos no País. Além de ser considerado um hobby pelos entusiastas, o chamado antigomobilismo também é visto como uma possibilidade de lucro financeiro. No entanto, nem todo carro antigo é um investimento, e até o dono descobrir isso, ele pode já ter perdido muita grana.

Fábio Pagotto, colecionador de carros e especialista em carros antigos, ao lado do seu Dodge Dart 1979
Fábio Pagotto, colecionador de carros e especialista em carros antigos, ao lado do seu Dodge Dart 1979

Placa preta

Primeiro, é preciso saber que o seu Volkswagen Gol 1990 não é antigo, mesmo com 25 anos de fabricação. Segundo a Federação Brasileira dos Veículos Antigos (FBVA), órgão criado em 1987 para regulamentar o antigomobilismo no País, para que um automóvel seja considerado antigo ele precisa ter, no mínimo, 30 anos.

Foto reprodução: Facebook
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Então quer dizer que se o carro tiver 28 anos ele não vale nada? Não necessariamente. Pela legislação do Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN), ele não é considerado um carro antigo. Mas ele pode ser um veículo histórico e já valer muito no mercado. De acordo com o especialista em carros antigos Fábio Pagotto, autor de diversos livros sobre o assunto, a princípio, qualquer um pode começar a preservar um carro relativamente novo pensando que daqui 30 anos ele terá o status de antigo.

“Recentemente a Volkswagen produziu 1.200 Kombi Last Edition, por exemplo. É um carro antigo? Não, é um carro 2014. Mas já tem um interesse especial para o colecionador. Ele só vai ter o status de carro antigo quando fizer 30 anos, mas já é um carro que muita gente comprou para guardar”, conta Pagotto.

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Foto reprodução: Facebook/Reginaldo de Campinas

Mas não é só a idade que determina se um carro é antigo ou não. Segundo a legislação, além de 30 anos, o automóvel precisa manter pelo menos 80% de sua originalidade. Ou seja, se todo o interior do carro foi adaptado, ou a fiação e o motor originais foram trocados por de outros modelos, ele não passará na avaliação para garantir o Certificado de Originalidade. E esse certificado é necessário para conseguir a famosa placa preta.

A placa preta surgiu para isentar o carro antigo de algumas obrigatoriedades e preservar a tal originalidade. Um Ford 1929, hoje em dia, teria de ter itens como pisca-pisca, que surgiram décadas depois. O sistema elétrico deste carro não suportaria um pisca-pisca, então a placa preta desobriga o carro a ter todos os itens de segurança, assim como também o deixa isento das inspeções veiculares, para preservar a originalidade do carro. 

Foto reprodução: Facebook/Reginaldo de Campinas
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Retorno não é garantido

Se o seu veículo não tem 80% de originalidade, porém, não significa que ele nunca poderá ganhar o certificado e atingir o status de colecionável. É nesse ponto em que começam os gastos com a restauração e a compra de peças originais – o que pode ser um grande investimento ou uma grande roubada.

Antes de começar a busca, o ideal é contatar um restaurador especializado em automóveis antigos e de confiança, para fazer uma pré-avaliação do estado e originalidade do carro. É ele quem vai dizer se o investimento valerá a pena ou não. Dependendo do modelo e da disponibilidade das peças originais no mercado, você poderá gastar muito mais restaurando o automóvel do que ele vai se valorizar.

Foto reprodução: Facebook/Reginaldo de Campina
Foto reprodução: Facebook/Reginaldo de Campina

“Comprar um carro antigo não é difícil, o difícil é restaurá-lo, custa muito caro. Eu não posso ter um funileiro comum, um mecânico comum, tenho de ter pessoas com habilidades especiais e que saibam o que estão fazendo. O custo do profissional é bem mais alto”, comenta Ricardo Oppi, restaurador especializado em automóveis raros e professor do Curso de Restauração de Veículos Antigos da Associação Clube do Carro Antigo, de São Paulo.

Por isso, Oppi aconselha que o interessado em adquirir um automóvel antigo com o intuito de investimento contrate um especialista que lhe assegure que aquele carro dará o retorno esperado. Além do custo com os profissionais, há também o custo das próprias peças que deverão ser restauradas.

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“Um automóvel antigo nacional é mil vezes mais difícil de ser restaurado do que o estrangeiro. Eu tenho uma DKW 1956 que está há treze anos na minha oficina. É muito difícil conseguir peças. Como esses carros não valiam nada na época, os donos trocavam todas as peças. É tudo adaptado”, conta o restaurador.

Se você estava pensando em restaurar aquele carro velho que herdou do tio-avô, não precisa desanimar. Com paciência, dinheiro e ajuda dos profissionais corretos, o carro antigo restaurado pode trazer um retorno financeiro acima do esperado, principalmente se for um automóvel raro, ou seja, se foram fabricados poucos do mesmo modelo, se for uma edição especial, ou mesmo se foi o primeiro ou último a ser fabricado.

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“Se a pessoa souber investir, ela vai se dar bem. Não adianta muito investir em um Fusca, que foram fabricados aos milhões, e esperar que ele valorize muito. Vai valorizar, mas talvez não valha a pena em comparação com o quanto será gasto na restauração”, observa Oppi.

“Já nos carros raros o retorno é mais garantido. O valor pode até estacionar, mas nunca vai desvalorizar. Eles continuam sendo obras de arte.”

Além disso, existem também as exposições e concursos de carros antigos, que premiam os automóveis a partir de diversos critérios, como raridade, originalidade e estado de conservação. Um dos mais famosos é o Pebble Beach Concours de Elegance, que ocorre anualmente no Canadá, e conta com a participação dos carros mais raros e valiosos do mundo.

É claro que nem todo entusiasta precisa ter a ambição e a grana necessárias para participar de um concurso como esse. O antigomobilismo é um hobby para todos os bolsos. Um Fusca antigo, por exemplo, pode ser encontrado à venda por cerca de R$ 3 mil, demandar um investimento de R$ 10 mil para a restauração, e passar a valer R$ 15 mil.

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“Se bem restaurado, o carro tende a recuperar o valor do investimento e a valorizar, porque a cada ano ele é mais raro. Eu mesmo tenho um Dodge que há 10 anos valia US$ 10 mil e hoje vale US$ 20 mil”, observa Pagotto.

Fonte: Murilo Aguiar/iG São Paulo

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